Poluição do Tietê só será resolvida com envolvimento da sociedade

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A despoluição do rio Tietê é uma promessa antiga de candidatos e governadores que até agora não se concretizou. Mesmo iniciativas que foram adotadas na capital ou grande São Paulo impactaram pouco no que podemos observar no trecho do rio que corta Salto. O Instituto de Estudos do Vale do Tietê (Inevat) é uma das instituições que não deixam o assunto ser esquecido e vem tentando envolver outras cidades para acabar com o despejo de esgoto no rio. O Jornal PRIMEIRAFEIRA entrevistou o presidente da instituição Ismar Ferrari, que falou sobre os debates que as cidades do Médio Tietê estão promovendo para cobrar mudanças urgentes.

 

Há quanto tempo se discute a poluição do Rio Tietê?
Ismar Ferrari: O Instituto existe há praticamente 30 anos. Ele começou um pouco antes das discussões da nova constituição do Estado, em 1989, para discutir o conflito que havia entre as regiões Metropolitana e Médio Tietê. Nessa época, já trabalhávamos, com um grupo de Salto e de Itu, que discutia as questões ambientais. A região Metropolitana não queria mais receber água do Rio Tietê. Naquele momento para o controle de enchente a água vinha para o interior, mas quando ocorriam enchentes, a barragem de Pirapora desviava a água para o rio Pinheiros. E isso era aceito normalmente, principalmente pela questão de a barragem de Pirapora, que foi projetada na década de 1930, com um extravasor de superfície com capacidade de 500 metros cúbicos por segundo, que desviava a água então para o Pinheiros.

 

E por qual motivo há esse conflito entre interior e região Metropolitana?
Ismar Ferrari: Os interesses imobiliários da capital estavam voltados para a marginal do rio Pinheiros. Esses empresários não queriam em função da poluição e de enchentes. O que sentíamos aqui, eles já sentiam lá. Mas eles queriam o rio com uma vazão controlada e que também não causasse mau cheiro.

 

Nessa época, algo chegou a ser feito?
Ismar Ferrari: Havia uma discussão intermediada pelo deputado saltense Archimedes Lammoglia que propôs na constituição estadual um artigo que protegia o rio Tietê, impedindo que a poluição da capital chegasse até a região. Em 1992, o Governo Fleury, contratou uma empresa para projetar um túnel debaixo da barragem de Pirapora, tudo sem dialogar com o Médio Tietê. Foi aí que começaram os grandes desastres. As cidades não tinham informação e o Inevat era a única entidade com conhecimento técnico e alertávamos sobre esses problemas, até de ilegalidade, mas nunca conseguimos nenhum sucesso, nem com os governos estadual e federal, nem com os prefeitos, que tinham medo. O governo do Estado não faz nada por razões puramente eleitorais.

 

Além do Inevat, alguma outra entidade luta pela despoluição do rio Tietê?
Ismar Ferrari: Existe o movimento, liderado pela SOS Mata Atlântica, de eliminar a sujeira do rio Pinheiros. Ela nasceu quase na mesma época do Inevat para defender os interesses do Rio Tietê, mas com o tempo e a saída do Fábio Feldman, o grupo que entrou não tinha nenhum interesse e compromisso com o Meio Ambiente. É um grupo que estava mais preocupado em receber recursos e utiliza muito da prática do “fake News”, dizendo que o rio está melhorando.

 

Mas e os estudos que apontam melhora na qualidade da água não condizem com a realidade?
Ismar Ferrari: Os estudos são totalmente falsos. Isso não existe. Depois que fizeram esse segundo túnel, em 2015, o rio vem preto, porque pega o lodo do fundo do reservatório. Antes a água vinha pela superfície, ficava parada na barragem, recebia a luz solar, oxigênio e tinha até uma pequena melhora na qualidade. Então, quando chegava no interior, você podia nadar, pescar. Mas, desde a construção do primeiro túnel, todos os materiais que ficam segmentados no fundo e todas as porcarias que pode imaginar, como metais pesados, microorganismos anaeróbicos, produtos químicos, e tudo isso está acumulado. Quando abrem as comportas, vem tudo para o interior. Por isso quando dizem que a qualidade do rio melhorou é uma mentira deslavada, uma total irresponsabilidade.

 

O que acontece se os túneis da barragem de Pirapora fossem fechados?
Ismar Ferrari: Hoje esses túneis garantem mais de 2 mil metros cúbicos, ou seja, é quase quatro vezes o volume original. Raramente ocorre essa vazão, mas quando ocorre, esse sistema de reversão funciona e joga a água para a represa Billings. Porém, desde que entrou a Gestão do João Dória, existia uma grande pressão das imobiliárias em liberar e mudar o sistema de bombeamento dessas usinas de reversão. Eles não querem água suja no rio Pinheiros. O Dória, entretanto, liberou um dos projetos de R$ 2 bilhões em um empreendimento comercial e residencial de alto luxo. E isso a qualquer momento pode ser inaugurado e fechar esse sistema de reversão.

 

Como isso pode impactar em Salto?
Ismar Ferrari: É uma tragédia o que ocorrerá. A cidade de Salto está limitada à vazão de 500 metros cúbicos por segundo. Com a abertura dos túneis começaram a aparecer problemas gravíssimos. Nós praticamente perdemos o memorial do Rio Tietê. E jamais imaginávamos que a água poderia chegar a esse nível. E pode aumentar ainda mais. A medida que paralisam o sistema de reversão, aumenta o volume no interior. A Prefeitura está investindo na recuperação desses locais, mas será inútil. Basta uma pessoa ir lá e abrir as comportas, que a água destruirá tudo. Hoje é inviável utilizar o Memorial do Tietê e a Ilha dos Amores. Não há a menor possibilidade de reaproveitar algum deles.

 

O bairro da Barra, que foi atingido pela cheia do rio no início do ano, corre algum risco?
Ismar Ferrari: As pessoas acham que a enchente é do rio Jundiaí, mas não é. É o rio Tietê que sobe e procura vazão no Jundiaí. Ele já destruiu três partes do muro. Uma parte é a que está próximo à praça São João, depois derrubou outra parte junto da ponte, e agora esse na frente da ponte. Não é um risco, é certeza que se continuar assim pode atingir as casas da Barra. Eu sou engenheiro e trabalho muito com muros de arrimo. Todo aquele “bolo” vai cair. Coloca em risco todas as casas. É uma tragédia certa.

 

Fechando os túneis da barragem de Pirapora resolveria o problema?
Ismar Ferrari: Não, pois ainda seria preciso bombear para a Billings. Existem locais para instalar novas bombas d’água para fazer a reversão. Todos sabem que a tendência é que as enchentes sejam cada vez piores. E tudo isso tem de ser feito na região Metropolitana. Não tem nada a ver com o interior. Quando concretar os túneis, a região Metropolitana terá de resolver seus problemas com as enchentes, usando outros meios para bombearem a água que viria para o interior, já que eles são os culpados por isso.

 

O que Salto pode fazer?
Ismar Ferrari: Em Salto não podemos fazer nada. Nem em Barra Bonita, outra cidade que começou a sofrer com a poluição do rio. É nadar contra a correnteza. A Prefeitura está gastando dinheiro à toa. Não adianta fazer nada. Tem até uma brincadeira do pessoal de Salto de Pirapora. Eles dizem que existe a enchente “Seo Pedro”: numa referência à suposta pessoa que abre os túneis da barragem.

 

O que deve ser feito então?
Ismar Ferrari: A primeira coisa a ser feita é as prefeituras se unirem, criando um subcomitê das bacias das comunidades ribeirinhas do Médio Tietê, que incluem Pirapora, Itu, Porto Feliz, Salto, Tietê, até chegar em Barra Bonita. É preciso também organizar a sociedade, porque só o prefeito ou a Câmara de Vereadores falar também não adianta nada. Todas essas cidades precisam mobilizar a sociedade civil, com associações de arquitetos, advogados, etc. Quando conseguirmos fazer isso, é preciso criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para que isso seja explosivo. Em Itu já há esse movimento, não igual a Salto, mas tem algo nesse sentido.

 

É possível essa união entre municípios?
Ismar Ferrari: Eu confio nisso. Hoje em dia você vê essas tragédias de os poderosos aniquilarem os empobrecidos. Basta pegar o que a Rússia está fazendo na Ucrânia. Mas, a Ucrânia está se defendendo e ninguém acreditava nisso. Aqui você tem o Governo de São Paulo lutando contra o Médio Tietê, numa situação parecida. A Ucrânia que é um país que de vive da agricultura está segurando o segundo maior país do mundo em poder bélico, então por que não podemos?

 

Podemos acreditar em voltar a ver o Rio Tietê limpo?
Ismar Ferrari: Não é pouco tempo, mas logo após a Constituição do Estado, havia a expectativa que isso ocorresse com o Projeto Tietê. A iniciativa previa a limpeza do rio e tinha prazo, logo no início do século, até 2010 mais ou menos. O problema seria resolvido em São Paulo e não haveria enchentes no interior. Em 2010 já teríamos toda a poluição de São Paulo tratada, mas não há interesse. Essa foi a solução encontrada pelos governos, de investir apenas na região metropolitana por que é ali que estão os votos. Mas há um compromisso do Governo Federal de resolver esses problemas nas próximas décadas, mas sabemos que isso dificilmente irá acontecer.

 

Governo do Estado, SOS Mata Atlântica, EMAE e Prefeitura de Salto são questionados
Algumas instituições foram citadas na entrevista concedida pelo presidente do INEVAT, Ismar Ferrari. A fundação SOS Mata Atlântica enviou uma resposta sobre os comentários feitos pelo presidente do INEVAT: “Há cerca de 30 anos, a Fundação SOS Mata Atlântica, por meio do projeto Observando os Rios, sensibiliza comunidades e capacita voluntários para monitorar a qualidade da água na Mata Atlântica. Tudo começou em 1991, com uma campanha que reuniu 1,2 milhão de assinaturas em prol da recuperação do Rio Tietê e originou o primeiro projeto de monitoramento da qualidade da água por voluntários, o Observando o Tietê.

Para agregar outras bacias hidrográficas, a iniciativa foi ampliada e passou a se chamar Observando os Rios. Nessa nova fase, com patrocínio da Ypê, o projeto conta com pelo menos 10 grupos de monitoramento da qualidade da água em cada um dos 17 estados da Mata Atlântica. A SOS Mata Atlântica tem grupos atuantes em Salto desde 1993. Hoje, na cidade, quatro deles realizam, em seis pontos, o monitoramento dos rios Tietê, Piray e Jundiaí.

A Fundação valoriza o comprometimento dos voluntários, que têm acompanhamento e capacitação de profissionais da SOS Mata Atlântica, entre eles educadores ambientais, geógrafos, biólogos e advogados da área ambiental. Os voluntários mensalmente se dedicam à tarefa de coletar água no mesmo ponto e produzir informações úteis para a população e o poder público – recentemente, por conta do aumento da poluição, a prefeitura de Salto entrou com uma ação judicial contra cidades do Alto Tietê na qual dados do Observando os Rios foram utilizados como base para a sentença.

Todos os indicadores do projeto podem ser consultados no site da ONG (https://indicadores.observandoosrios.sosma.org.br/indicadores) e os resultados das análises também são divulgados anualmente em relatórios. O último relatório está disponível em https://cms.sosma.org.br/wp-content/uploads/2022/03/SOSMA_Observando-os-Rios_2022.pdf

Os dados são reconhecidos pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e pela Agência Nacional de Águas (ANA).”

O jornal PRIMEIRAFEIRA fez contato com a Secretaria de Meio Ambiente do Governo do Estado que não respondeu se existem projetos na região metropolitana que podem afetar o interior.
Procurada a Empresa Metropolitana de Águas e Energia – EMAE informou que “não há projeto de paralisação da reversão das águas afluentes ao rio Pinheiros nos períodos de chuvas, conforme regra prevista em resolução estadual. Sobre a Usina de Pirapora, os descarregadores são regulares e foram instalados visando o controle de cheias, ou seja, sem a barragem, essa região do Tietê poderia sofrer inundações a jusante do empreendimento. Então, esse conjunto de barragem e descarregadores é importante para a regularização das vazões de cheias. Em relação ao lixo, as atividades da EMAE não produzem detritos nem lodo, sendo esse um problema que deve ser tratado na origem, o que não está no âmbito da empresa, bem como não é atribuição da EMAE a despoluição da Bacia do Tietê. Por fim, a despoluição do rio Pinheiros não implica em nada na alteração das regras de bombeamento das cheias, portanto, o processo continuará a acontecer nos mesmos moldes atuais”. Ainda segundo a EMAE é realizado na capital e região Metropolitana o desassoreamento e manutenção de 61,9 do rio Tietê para aumentar a capacidade de escoamento e evitar enchentes.
Por fim, sobre o perigo aos imóveis do bairro da Barra, a Prefeitura de Salto disse que o estudo feito no local descarta qualquer tipo de risco na área afetada e todos os setores competentes da administração acompanham a situação com frequência. Já sobre o Memorial do Rio Tietê, a Prefeitura informou que não há riscos de novos danos no local e que o projeto de reforma contempla ações que irão impedir a destruição do Memorial.

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