Hospital em crise: ausência de licença, infraestrutura precária e incertezas

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on email

Até agora não existe uma definição de quando o Hospital Municipal terá uma gestão definitiva. Desde 2019, tem passado de mão em mão sem que se consiga fazer um edital para que uma Organização Social seja a responsável pelo trabalho da forma como a população espera e precisa. Entretanto, não basta apenas cuidar de todo o atendimento, já que os problemas são maiores do que imaginamos. O PRIMEIRAFEIRA conversou com Luciano Marcondes Cadoná, Diretor da Beneficência Hospitalar de Cesário Lange (BHCL), antiga gestora do Hospital, cujo contrato terminou em abril. Ele falou sobre os problemas vistos durante seis meses, falou sobre o potencial que o Hospital ainda pode atingir e explicou o que levou a entidade a abrir mão da gestão emergencial.

 

Qual a situação do Hospital Municipal quando a BHCL assumiu?

Luciano Marcondes Cadoná: Assumimos o hospital em 6 de outubro de 2021 no meio de um processo bastante delicado, tendo funcionários e toda equipe médica querendo fazer uma paralisação, porque com a troca da Caminho de Damasco pela BHCL, era a segunda Organização Social saindo com débito junto a esses profissionais. Ficamos 45 dias convivendo com essa situação de vai parar ou não vai. E nós só conseguimos mitigar isso a partir do momento em que trabalhamos no mês de outubro e fizemos o pagamento dos profissionais, dos celetistas e depois os médicos. Isso gerou uma certa credibilidade. Pegamos o hospital com esse ambiente de desconforto e desconfiança, e fizemos um trabalho árduo para movimentar, fizemos algumas trocas significativas. Alguns médicos decidiram não ficar porque havia uma desconfiança de não receber. Nesse espaço, o Hospital tinha um problema sério de equipamentos e de agendamentos cirúrgicos e nós conseguimos resgatar isso, reestabelecendo o volume cirúrgico. Para você ter uma ideia, de janeiro até dia 3 de abril, produzimos 2500 cirurgias, sendo 815 em janeiro, 737 em fevereiro, 766 em março e em abril que foram poucas, apenas 14 cirurgias. E apesar de ser Cesário Lange e ter contratos com outros municípios, por se tratar de Salto, tivemos um problema sério, uma vez que outros fornecedores que já nos forneciam materiais não queriam fornecer pra Salto porque o histórico era de que a Prefeitura de Salto não pagava as organizações sociais, e, consequentemente, os fornecedores não recebiam.

 

Quais os problemas estruturais encontrados pela BHCL no Hospital?

Luciano Marcondes Cadoná: O hospital tem situações estruturais muito grandes que precisam ser arrumadas. As partes elétrica e hidráulica são antigas e a manutenção não foi feita adequadamente. O hospital precisa fazer a revisão dos hidrantes e precisa fazer uma revisão da parte elétrica. Existem locais em volta do hospital com a grama queimada que parece que a chuva ficou correndo o dia inteiro ali, mas não é. É o calor da tubulação de energia que esquenta a grama. Então, acredito que se a Prefeitura focar nisso. Bem, ‘estourando’, um milhão e meio, um milhão e seiscentos mil reais se resolve. Na parte elétrica, houve um acordo entre CPFL e Prefeitura para a instalação de placas geradoras de energia, mas para um Hospital com o volume de procedimentos, quando se coloca ele em carga total, se gasta muita energia. A primeira conta de luz que paguei foram 71 mil reais, principalmente por que ficou parado sem procedimentos cirúrgicos (em virtude das restrições sanitárias por conta da Covid-19). Quando demos carga total nele, deu 122 mil reais. Ou seja, por mais que tenha a energia fotovoltaíca, é para suprir de 35 a 40 por cento da demanda, e isso, funciona prioritariamente durante o dia. (…) Tudo impacta com o tal do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que é a licença que o Hospital precisa e não tem. É só fazer esses ajustes. É preciso tratar o hospital como deve ser tratado. Se acontecer algum problema, com queima de equipamento com dados do paciente, quem responde por isso é a Prefeitura, mas eles acham que é a empresa gestora. Quem tem de prover o ambiente cem por cento funcional é a Prefeitura. Está em contrato.

 

Porque esses problemas não foram corrigidos?

Luciano Marcondes Cadoná: Porque no processo licitatório a Prefeitura segura esse serviço de reparo. Então você tem a sociedade ou mesmo a Câmara de Vereadores cobrando itens de reparo que não estão no contrato. As cláusulas contratuais são bem claras. Tudo o que se refere à infraestrutura quem tem que oferecer é a Prefeitura. E, pelo que vi, roda com um engenheiro lá, mais preocupado em mexer na maternidade. Mas espera aí, antes de eu montar o ambiente de uma casa, eu preciso ter a infraestrutura pronta. Eu preciso saber como a água entra e como a água sai. Mas isso é pra quem conhece de Gestão de Hospital. E obviamente o Poder Público quer fazer da maneira dele.

 

Qual o maior desafio para a Prefeitura em relação ao Hospital?

Luciano Marcondes Cadoná:Com a abertura da Unimed e do Samaritano (novos hospitais que serão inaugurados em Itu), muitos dos profissionais vão embora e a Prefeitura vai ter de resolver essa equação. Enquanto a BHCL esteve à frente, se antevendo a isso, e abriu todas as atividades para formação dos profissionais, grupos de enfermagem e outras áreas, em que foram feitos dois convênios para ajudar a formar. Isso é também responsabilidade de um Hospital Público, essa missão de ajudar a formar. Um exemplo é o Hospital das Clínicas de São Paulo ele tem como missão atender, mas também formar esses profissionais. E você vê que a iniciativa privada está indo pra isso. O (Hospital Albert) Einsten está fazendo isso, inaugurando uma instituição educacional para poder caminhar em conjunto entre teoria e prática.

 

Há déficit de profissionais?

Luciano Marcondes Cadoná: Quando entramos tínhamos 363 profissionais. Existia a necessidade, tanto que saímos com 458 funcionários. Isso tem de ser ajustado e acho que para fazer todos os serviços que fazíamos, essa quantidade de profissionais vai para próximo de uns 500. Se for atender o edital publicado em março, aí passa da casa de 540, 550 (funcionários).

 

A BHCL tem interesse em continuar a frente da gestão do Hospital de Salto?

Luciano Marcondes Cadoná: Quando entramos, não entramos para ficar no emergencial. Entramos para ficar num período maior. Todas as ações tomadas durante 30, 60, 90 dias, foram com essa previsibilidade de continuidade. Temos como premissa fazer isso. Saindo um novo edital e se ele tiver as particularidades atendidas de forma financeiras, vamos continuar. O que não pode acontecer é as particularidade sque nos foram oferecidas.

 

Qual seria o valor mínimo para administrar o Hospital, AME e Ala Covid-19?

Luciano Marcondes Cadoná: O valor pra administrar o Hospital, com todos os aumentos que tiveram do final de setembro pra cá, como energia, dissídio dos profissionais, medicamentos que em alguns casos mais do que quadruplicou, seriam R$ 6,5 milhões. E tem de estar claro que boa parte desse custo é do Hospital, porque o que às vezes mascara é que eles colocam um valor para a Ala Covid, um valor para o AME e outro para o Hospital. Isso precisa ser separado. Não pode pegar um valor inteiro do Hospital e dividir. O AME com um milhão e setecentos você faz, hoje do jeito que está a COVID, com 800 mil reais faz, então, temos um Hospital de quatro milhões e cem, mais ou menos, isso fora os valores para as melhorias.

 

Porque há filas enormes de procedimentos cirúrgicos?

Luciano Marcondes Cadoná: Quando assumimos, existia um bando de dados, não é banco, é bando mesmo. O que tivemos de fazer: Por cada particularidade, chamamos a equipe médica, por exemplo, no setor Vascular, nós identificamos que se déssemos uma agilizada, reduziria a fila, o que acabamos reduzindo. No setor de Urologia, tínhamos a necessidade até de validar se o paciente não havia feito fora, então começaram a ser feitas consultas e algumas unidades começaram a puxar isso pra eles. Uma situação que ocorre é que os postos geram uma demanda do município. Essa demanda pode entrar para as especialidades de Salto, em que podem ser feitos alguns dos procedimentos, o que não envolve a DRS e o AME. A outra situação é que existem procedimentos que foram levantados nesses postos que precisam ir para a DRS, que não necessariamente não são atendidos no AME de Salto. Falta fazer um mapeamento. Em Ortopedia, quando entramos, haviam 400 fichas de procedimentos cirúrgicos, mas fazendo as consultas, chegamos à conclusão de que alguns nem tinham de estar ali, porque o paciente já tinha feito ou o nome dele estava escrito errado. Acho que Salto pode resolver isso de forma simples. Reconhece que há o problema, faz um mutirão não de cirurgia, mas de consulta mesmo.

 

Como era a relação da BHCL com a Prefeitura?

Luciano Marcondes Cadoná: Na entrada da BHCL teve a Prefeitura querendo fazer do jeito que ela entende. Tiveram várias situações em que precisamos falar: ‘Esse espaço é nosso. Se houver algo de errado, me notifica’. A nossa saída não sei como a gestão conseguiu fazer um edital definitivo e um emergencial com um teto menor com o que foi no edital de 28 setembro. Houve uma empresa de auditoria que disse qual deveria ser o novo custo e a Prefeitura me solta o edital de 6521 e um emergencial com um valor menor que o emergencial de setembro. A postura da Cesário Lange foi de que a Prefeitura estava, no mínimo, de brincadeira. Porque eles queriam forçar a manutenção do serviço com um valor menor sendo que houve um aumento. O que precisa ficar claro é que não somos amadores.

 

A BHCL apresentou uma proposta para a contratação emergencial?

Luciano Marcondes Cadoná: Apresentamos nossa proposta e a Prefeitura no entendimento deles achou que estávamos sendo arrogante, mas não estávamos. Eu sei o custo do Hospital. E tenho planilhas e mais planilhas para avaliar isso. Para nós, eles fizeram porque sabíamos que não ficaríamos. Tanto que se juntar peça por peça, como que um advogado aleatório conseguiu fazer com que o Tribunal de Contas, mais uma vez, impugnar o edital de Salto? Porque está cheio de erro, cheio de vício. E eles tentaram fazer o mesmo vício que levou a Caminho de Damasco a tomar prejuízo, tentaram fazer com a gente.

 

Então não foi a BHCL que impugnou o edital para escolha da nova OS?

Luciano Marcondes Cadoná: Não foi a Cesário Lange, o que, aliás, é uma coisa que o Secretário de Saúde adora falar. Entendemos que eles tinham a ideia de tirar a BHCL quando eles colocam outro edital em valor menor. Eles falam que foi a BHCL, porque a partir do momento que fizeram a arte de tentar que entrássemos no erro, como vou participar de uma concorrência em 28 de março sabendo que tenho de reajustar o salário dos profissionais em maio. Eu tenho de ser responsável com os profissionais que ali estão. E o que eu vou fazer? Chegar na porta da Prefeitura e dizer que precisa reajustar. O senhor Márcio Conrado vai fazer o que é padrão dele. Tapinha nas costas e lá na frente a gente vê. Ele enrolou seis meses a Caminho de Damasco com isso

 

No seu entendimento, para ser secretário de Saúde é preciso ser especialista na área?

Luciano Marcondes Cadoná: Não. Secretário de Saúde primeiro de tudo, se não é da área, tem de ser humilde. Tem de saber que ele não sabe e que ele vai aprender. Ele não pode sentar na cadeira e ir nos “achômetros”. Salto pagará uma conta elevada por essas tentativas. Um dia a conta vai chegar. Quando você vê o histórico de outros locais, a pessoa não necessariamente é médico, mas chegou e tentou entender o que fazer, como fazer, como funciona a máquina pública.

 

Qual sua visão sobre o potencial da cidade?

Luciano Marcondes Cadoná: Salto tem uma condição geográfica excelente, com um perfil de mão de obra adequada para ‘n’ situações, mas está se enforcando. Enquanto você vê iniciativa de dezenas de milhões em Itu, Indaiatuba, Elias Fausto, etc. Em Salto há muitas coisas que estão remoendo. O que Salto tem de trazer é serviços com alto valor elevado. Itu cedeu um espaço para uma área de tecnologia; Indaiatuba já tem isso há algum tempo, porque Salto não? Tem infraestrutura de Saúde e Educação para os profissionais? Salto tem de entender que tem indicadores que não sou eu quem gera, não é a Prefeitura, são dados que estão nos registros Estadual e Federal. Salto está perdendo muito investimento de valor agregado, porque gera essa incerteza.

 

O Hospital opera em seu limite?

Luciano Marcondes Cadoná: Em janeiro, quando deu aquele pico de COVID, o Hospital respondeu pelo tamanho que ele é e pelo que pode ser. Foram produzidas 815 cirurgias, foram feitos mais de 11 mil atendimentos só na ala de COVID/síndrome respiratórias, processos de consultas e consultas do AME que foram feitas. E diante de tudo isso, os profissionais responderam. Então há uma riqueza enorme dos profissionais, que acabam muitas vezes ofuscados porque na base piramidal (postos de saúde), há falhas. As pessoas correm para o Hospital e as pessoas querem que sejam feito o atendimento de uma maneira muito rápida. O Hospital e os profissionais deram o recado deles para a Prefeitura e para a Diretoria Regional de Saúde (DRS) de Sorocaba, de que: ‘nós conseguimos produzir’. O Hospital pode produzir três vezes mais. Tranquilo. Mas precisa passar por uma reforma e adequação estrutural urgente. A BHCL encaminhou ofício para a Prefeitura com essas solicitações e inclusive orçamento para que a Prefeitura tomasse as devidas precauções e ações. A equipe médica estar ali, numa cidade como Salto, muitos deles sem receber de gestões passadas e estar ali, não é só por que querem, mas porque confiam no que pode ser feito.

 

E em relação aos equipamentos?

Luciano Marcondes Cadoná: Nós fizemos uma avaliação de todos os equipamentos. E foi uma avaliação de Excel, porque quando participamos do edital eles nos deram um planilhão em PDF para sairmos checando. Eu não tenho condições e qualquer ser humano normal, que não seja presunçoso, não consegue saber a diferença de equipamento “x para y” de tudo o que tem no Hospital. Tanto que na engenharia clínica você tem três ou quatro pessoas cada uma em sua especialidade. Fizemos a contratação de uma empresa que faz isso, e mapeamos ala por ala, tirando foto e catalogando. Entregamos esse book fotográfico para Prefeitura, inclusive, com o dimensionamento do valor. Na época, tínhamos quanto custariam cada equipamento para depreciação, se estava bom, ótimo, regular ou se precisaria ser para desuso.

 

Qual o tempo que uma organização precisa para entender e fazer funcionar adequadamente o Hospital Municipal?

Luciano Marcondes Cadoná: Se a BCHL voltar, em seis meses a máquina está funcionando, mas quem pegar do zero, vai precisar de um ano, porque tem de fazer toda uma readequação, entender os interesses e oportunidades que existem de novos serviços junto à Regional de Saúde (DRS).

 

Receba as principais notícias de Salto e região toda semana em seu e-mail e WhatsApp de forma GRATUITA com a qualidade e profissionalismo que o PRIMEIRAFEIRA apresenta semanalmente em nossas edições na comodidade de seu lar.

    E-mail:
    Celular: